RESGATE DA DIVERSIDADE NA ALDEIA MARACANÃ

RESGATE DA DIVERSIDADE NA ALDEIA MARACANÃ

Imagens: Nymue de Medeiros/ Yuri da Cunha

O Rio de Janeiro tem potencial para tornar realidade um complexo turístico sustentável, respeitando os povos tradicionais, que não existe em nenhuma outra cidade do mundo: um centro de referência indígena, eternizando os conhecimentos ancestrais para as futuras gerações – a Aldeia Maracanã – ao lado do conjunto esportivo que tem o mais famoso estádio de futebol do mundo, o Maracanã. Próximo ao Metrô e de sistema integrado de ônibus.

A ocupação indígena Aldeia Maracanã ocorreu há 14 anos e, em 2013, reuniram-se no Rio algumas das principais lideranças indígenas do País para colaborar no projeto do Centro de Referência da Cultura Viva dos Povos Indígenas. Depois de restaurado, o Centro Cultural Indígena funcionaria no prédio do antigo Museu do Índio. A ideia está no papel e envolve uma polêmica que antecede os preparativos da Copa Mundial de Futebol de 2014: ou erguer o projeto museológico, com repercussão mundial, ou passar o trator e transformar a área em estacionamento e em mais um shopping center. Enquanto isso, mesmo com seus atuais habitantes vivenciando a primeira experiência urbana indígena, o belo prédio da Aldeia Maracanã, construído em 1862, deteriora-se.

Os indígenas que vivem ali tentam manter as culturas milenares das etnias.

– Nós estamos pisando em solo sagrado, nós estamos pisando em um cemitério dos povos originários daqui. Por sinal, aqui também foi o aldeamento do povo Maracanã. Maracanã (Maraka’nà) é uma etnia, deu origem ao bairro, à própria Arara – relata Zé Urutau da etnia Guajajara.

– É o fogo sagrado. Hoje em dia a gente está aqui na Aldeia Maracanã e continuamos o fogo sagrado, fazendo a nossa reza, nossa oração – crê Korubo representando sua etnia entre os cerca de 1.500 índios que vivem hoje no Rio.

A índia Potyra mostra um pé de Urucum – do tupi, uru’ku, que significa “vermelho”, é uma fruta que cresce na árvore pertencente à espécie Bixa orellana. Daí, tradicionalmente, os indígenas fazem a tinta vermelha que colorem seus rostos, corpos, utensílios. “Estou pintada com a semente dele. A gente plantou essa aqui hoje, eu, Korubo, Guajajara e Pirazuma”, conta Potyra, referindo-se a moradores da Aldeia Maracanã.

Dessa linda diversidade brota a sabedoria esquecida: no Centro de Referência da Cultura Viva dos Povos Indígenas poderiam ser expostas ervas e curas medicinais hoje desconhecidas do grande público. “Recebemos da lua cheia, do cosmos a energia para que o fogo sagrado nos dê proteção porque aqui na Terra está tudo contaminado”, constata Korubo. “Foi tudo plantado já. Essa aqui é pra comer, é pra inflamação na garganta”, indica Potyra.

– O sonho agora é viajar de forma mais simples, buscando o que é autêntico – comenta Marcela Pimenta, da Organização Mundial do Turismo (OMT), agência das Nações Unidas para questões de políticas turísticas que promovam um turismo responsável, durável e acessível a todos, reunindo 158 países.

Marcela Pimenta explica que o Turismo mundial passará a ser comandado pela geração Z – “que quer ser, não quer ter”. É a primeira geração da era digital, nascida entre 1997 e 2012, que nunca viu o mundo sem celulares e computadores, e que busca conectar o que há de original e singular de outras culturas, e é muito seletiva. Antes da pandemia do coronavírus, a previsão era de que, na próxima década, se tornaria o maior grupo de passageiros aéreos, com 1,2 bilhão de pessoas viajando anualmente por avião. De qualquer maneira, não será qualquer marketing turístico que irá atrai-la.

– Não adianta um espaço indígena sem origem verdadeira, sem singularidades, sem experiências reais, sem trocas genuínas. Pode até ter um guia treinado, mas a geração Z vai em busca do verdadeiro, do índio real.

Desde 1910, etnias de todo o País estiveram no prédio da Aldeia Maracanã, que foi a sede brasileira de proteção ao índio, abrigando “o melhor do pensamento, da ação e do descortino moral dos brasileiros mais ilustres que jamais pensaram e trabalharam pela causa indígena no Brasil”, o marechal Cândido Mariano Rondon, Darcy Ribeiro, Orlando Villas-Boas, Noel Nutels, Eduardo Galvão, Carlos Moreira Neto, como diz o laudo do antropólogo Mércio Gomes, ex-presidente da Funai, professor da UFF e UFRJ. A íntegra do laudo está no blog do Mércio Gomes.

O Centro de Referência poderia ser comparado aos dois National Museum of the American Indian nos Estados Unidos: um localiza-se em Manhattan, no coração de Nova York, e o outro no coração de Washington. Enquanto o estádio do Maracanã recebe a visita de 190 mil turistas por ano, os museus americanos atraíram somente em 2018, 1,5 milhão de visitantes. E, de alguma forma, resgatam a origem das Américas habitadas no início da colonização por 70 milhões de índios (Russell Thornton, 1987), dos quais restavam menos de 80% no início do século passado. A diferença é que, no caso brasileiro, o resgate cultural pode ser feito pelos próprios índios.

Mas o Brasil ainda tem que chegar lá. Tem um potencial turístico imenso pelos atrativos, segundo a representante da OMT. Até 2018, o País era campeão do ranking de competitividade turística internacional de recursos naturais. E está em 8º lugar no ranking de recursos culturais. O PIB turístico corresponde a 8,1% do PIB brasileiro, notadamente pelo turismo doméstico. O turismo internacional no Brasil ainda é “incipiente”. A conectividade aérea num país continental é muito deficiente. O que um centro indígena inédito no planeta representaria para o desenvolvimento sustentável no Brasil?

– Deve ser feito um estudo de viabilidade para um projeto que receba os turistas mostrando o que realmente pensa o índio brasileiro – recomenda Marcela Pimenta.      

Como no canto lindo de Korubo, na Aldeia Maracanã está o Brasil inteiro. Korubo entoa “Pachamama” que historiadores atribuem especialmente a povos andinos, mas a voz do guerreiro amplia: há referências à Grande Mãe Terra no Brasil e nos cinco continentes.

Nós continuaremos aqui porque nosso tataravô, bisavô, deixou aqui um cemitério indígena e nós vamos continuar aqui guardando e protegendo nossa ancestralidade – diz Korubo. 

“A cidade do Rio de Janeiro é reconhecida no mundo inteiro pela alegria de viver de seu povo,mestiço e multitudinário (Darcy Ribeiro), pela gentileza com que tem recebido e continua a receber outras culturas, e pela capacidade criativa de apresentar novas ideias e costumes dentro da cultura brasileira. Aqui no Rio de Janeiro tudo pode acontecer, se for feito pelo seu povo, e se tiver o caráter de criatividade e compartilhamento com todos”, atesta o laudo antropológico de Mércio Gomes, vislumbrando o futuro.

Rossana Estrella/Essentia