SATERE-MAWÉ: CIVILIDADE NO COMBATE À COVID-19

SATERE-MAWÉ: CIVILIDADE NO COMBATE À COVID-19

Índios da etnia sateré-mawé da comunidade Sahu-Apé localizada a 80 quilômetros da cidade de Manaus usam mascaras para proteção contra o Covid 19

SATERE-MAWÉ: CIVILIDADE NO COMBATE À COVID-19 é a realidade na distante aldeia Sahu-Apé, às margens do Rio Ariaú, no Estado do Amazonas. Máscaras, luvas e orientações médicas on-line tornaram-se rotina entre os 71 indígenas que habitam o local. E, desde o início da pandemia, nenhum caso foi registrado. Muito diferente da aldeia Waikiru, da mesma etnia, onde 10% da população de 200 indígenas está com sintomas da doença. Vivendo mais próximos da capital Manaus, e sem assistência da rede oficial de saúde, eles têm usado a sabedoria ancestral dos produtos da floresta para tratar a suspeita de corona e fugir da morte.

A velocidade com que os sintomas se replicaram na Waikiru é impressionante: em 18 de abril havia apenas 1 suspeita de contaminação na comunidade. O cacique André Satere e seus liderados tentam nesses dias combater cada sintoma com uma espécie vegetal diferente. Enquanto na Sahu-Apé, desde ontem, 28/05, o cacique Sahu providenciava a mudança de sua comunidade para uma outra área a 20 quilômetros de distância, floresta adentro:

– Perto da aldeia está empestado de coronavírus. Nosso medo é esse: pegar – disse ele, contando que a doença apareceu em moradores ao longo da Estrada Manaus-Manacapuru (AM-070), a cerca de 40 quilômetros da capital amazonense.

Seis famílias já foram para a área mais isolada. O cacique Sahu quer levar todos os de grupos de risco que são a maioria da aldeia: “São diabéticos, têm pressão alta, asma, essas famílias que estamos querendo levar para lá”. Ele explicou que pretende que essa mudança seja passageira, por até 20 dias, para evitar qualquer tipo de contágio. “Nós não estamos nos mudando de vez, então estamos indo para esse outro terreno até passar um pouco tudo isso”.

A sabedoria do cacique Sahu se estende por fronteiras ilimitadas do conhecimento: em 6 de maio, o médico Marcos Lucon, que atende nos hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, em São Paulo, deu uma consulta on-line para habitantes da aldeia Sahu-Apé, a quatro mil quilômetros de distância, explicando os procedimentos de prevenção à COVID-19. Com doutorado pela Universidade de São Paulo, Lucon é voluntário da plataforma Dr. Conecta que, há 28 dias, nesses tempos difíceis de pandemia, atende gratuitamente pessoas com poucos recursos ainda mais fragilizadas. Para essa comunidade Satere-Mawé foram dois dias de orientações médicas, informou Beatriz Correia Chavedar, também voluntária da plataforma. Bastou cadastrar-se no site com um e-mail qualquer – não precisa ser do próprio paciente. Mais de 30 médicos estão realizando esse trabalho.

Satere-Mawé
Cacique Sahu e indígenas de sua aldeia recebem orientações sobre prevenção ao novo corona via Telemedicina.RICARDO OLIVEIRA/Essentia

Na aldeia Waikiru a situação está bem mais complicada. Há sintomas como falta de ar, muito cansaço, olfato adormecido, muita dor no corpo. E o cacique André Satere tem a dificuldade de conseguir atendimento especializado, mesmo morando a um pouco mais de 20 quilômetros de Manaus, pela BR-174, na região do Rio Tarumã. Até hoje, não havia confirmação oficial de que os 20 indígenas suspeitos de estarem com corona realmente tenham contraído a doença. Há mais de duas décadas, os Satere da Waikiru saíram de sua área original, na fronteira com o Pará, para se estabelecer nas proximidades de Manaus. Então, o órgão federal que cuida da saúde indígena considera-os “desaldeados” e indica que eles devem ser atendidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Só que têm indígenas nessa comunidade que não falam português ou tem sequer carteira de identidade e como, então, conseguiriam entrar no sistema burocrático do homem branco?

Assim, na Waikiru, os indígenas estão tratando-se com infusões feitas com casca de carapanaúba e de saracura-mirá. Além de xarope feito com jambu, alho, limão, casca de manga, hortelã, gengibre e mel. E, nessa comunidade, a doença não evoluiu para casos fatais. Claro que não há estudos científicos sobre as propriedades desses produtos da floresta no combate ao novo coronavírus, mas o Brasil tem a possibilidade de fazê-los por ser um território riquíssimo em matérias-primas. “Tem que ser criada uma política governamental para incentivar o desenvolvimento de remédios a partir da flora brasileira”, incentiva Evandro de Araújo Silva, da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil.

De qualquer maneira, os Satere-Mawé têm notório saber por suas pesquisas informais: foram eles que “domesticaram” o fruto do guaraná: a caferana, frutinha com polpa bem vermelha e adocicada com fundo amargo que atualmente existe em formas industrializadas em lojas de todo o planeta.