QUILOMBOLAS DA AMAZÔNIA: TAXA DE MORTES É A MAIOR DA AMÉRICA LATINA

QUILOMBOLAS DA AMAZÔNIA: TAXA DE MORTES É A MAIOR DA AMÉRICA LATINA

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A Amazônia hoje é a região que tem o maior número de mortes pela Covid-19 na população quilombola da América Latina. A taxa de letalidade mundial varia de 0,9% a 1,2%, enquanto entre os quilombolas do Norte brasileiro chega a 17%, afirma o Professor Renan Albuquerque, autor da pesquisa indicando que os estados do Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia e Maranhão respondem por 63% da mortalidade por coronavírus entre eles. Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ambientes Amazônicos da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), o Professor Renan realizou o trabalho com seu aluno de doutorado, historiador Ítalo Ferreira de Oliveira, que está nesse momento em Parintins, a 369 quilômetros de Manaus (AM).

– Desde março, não consigo entrar na comunidade de Santa Tereza do Matupiri, onde desenvolvo a minha pesquisa de doutorado – contou Ítalo, há seis anos estudando os quilombolas dessa área do Rio Andirá, no Baixo Amazonas, que tem mais quatro comunidades do gênero, reunindo mais de 2,5 mil pessoas.

Abandonados pelo Estado, os próprios quilombolas montaram uma barreira sanitária para que ninguém entrasse ou saísse da comunidade de Santa Tereza. “Eles estão protegendo a passagem pelo rio e, até agora, não teve nenhum caso nessa comunidade”, relata Ítalo. A Santa Tereza é próxima da cidade de Barreirinha, e a estrada até lá é intrafegável, mesmo passando por Freguesia do Andirá, onde vive o maior poeta vivo da Amazônia, Thiago de Mello. A 49 quilômetros de Parintins, leva-se 3 horas de barco para chegar em Barreirinha.

Dona Amelia na torrefaçao de farinhaÍTALO FERREIRA/Essentia
Dona Amélia conversa com o Doutorando Ítalo Ferreira

Essa realidade, porém, não se repete: sistematizando dados do site de monitoramento da Covid-19 entre os quilombolas https://quilombosemcovid.org/, parceria entre Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e ISA (Instituto Socioambiental), a pesquisa do Professor Renan mostra que o quadro é assustador. Peru, Equador e Colômbia, que são os outros países latino-americanos com índice significativo de mortes de quilombolas por coronavírus, somam juntos mais de uma centena de mortes, número apenas 20% maior do que o do Brasil. O índice de letalidade naqueles países é em média de 5,8%. Sem levar em conta que há subnotificação de casos, esse índice entre os indígenas brasileiros é de 9,5% aproximadamente.

– As mortes e a contaminação pela Covid-19 triplicam entre os quilombolas – aponta o Professor Renan.

Pós-doutorado em Antropologia pela PUC de São Paulo, ele explica que a situação dos quilombolas na Amazônia torna-se ainda mais crítica por três fatores: as enormes desigualdades sociais, as distâncias continentais e a precariedade do sistema de atendimento primário de saúde. Como o médico da família e o agente comunitário foram “demonizados” na região, não é possível montar um sistema eficiente para identificar a cadeia de transmissão do vírus. Esses profissionais poderiam quantificar o número de infectados na família e redes de relacionamento de cada paciente atendido, mas a estrutura para eles trabalharem é inexistente.

Renan Albuquerque, Professor da UFAM Pós-Doutor em Antropologia pela PUC-SP

Quilombos são espaços de resistência e é em Santa Tereza do Matupiri que vive Maria Amélia Castro, presidente da Federação dos Quilombolas do Rio Andirá e bisneta do angolano Benedito da Costa que, fugindo da escravidão, chegou ao Amazonas no século XIX e se apaixonou por uma índia Satere-Mawé. “Ficamos de plantão na entrada do Matupiri para não deixar ninguém entrar porque temos que nos cuidar para impedir que chegue vírus na nossa comunidade, não chegue a doença, porque a gente está cercada. Barreirinha tem, Parintins tem, Maués tem, então temos que ficar no nosso quilombo aqui, bem quietinhos, rezando”, atesta ela, por telefone rural – único meio de comunicação – dizendo que não há qualquer estrutura de Saúde na sua área. A situação só não é pior porque a Associação das Crioulas do Barranco, presidida por Keilah Fonseca, da comunidade quilombola da Praça 14, em Manaus, arrecadou recursos e enviou máscaras, álcool gel, cestas de alimentos, para os quilombos do Andirá. Desde 2014 a construção de um posto de atendimento ali está paralisada: “Desde que me entendo por gente o quilombo nunca foi olhado. Eles só chegam pra pedir voto…”, lamenta Maria Amélia.

– Caso uma única pessoa fosse contaminada lá, seria como rastilho de pólvora, seria um genocídio – confirma Ítalo Oliveira.

Parintins, onde ele está agora, não terá este ano o mais famoso Festival Folclórico do planeta, o do bumba-meu-boi, que atrai anualmente, na segunda quinzena de junho, turistas de todo o mundo. Com mais de 1,9 mil casos confirmados da Covid-19 e mais de 60 mortes, a população de Parintins vive hoje sob toque de recolher.