Uma vida por cima do muro na Rocinha

Uma vida por cima do muro na Rocinha

De sua laje, a manicure Stephanie Araújo, de 27 anos, tem uma belíssima vista da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Desde que a quarentena foi decretada na cidade, há quase 4 meses, Stephanie trancou-se em casa, saindo poucas vezes para comprar comida ou pagar contas. Seu rendimento caiu, pois é prestadora de serviços. Aos poucos, vai retomando as clientes fiéis que moram nas redondezas, com todos os cuidados recomendados – máscaras, luvas, álcool gel – e um atendimento por dia. Por enquanto, não voltará ao salão de beleza onde trabalha, a 6 quilômetros de distância, já que depende de transporte público.

– Reabriram, mas não vou voltar. Ainda está perigoso. Os ônibus estão lotados! Tenho livre escolha e tenho que me proteger, tenho que proteger minha família. Sair agora é suicídio – afirma. Stephanie nasceu e vive até hoje na Rocinha, considerada a maior favela da América Latina. De acordo com os últimos números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), previstos para 2019, a Rocinha é o maior aglomerado “subnormal” (ou de ocupação irregular) do Brasil, com 25.742 domicílios. Considerando 4 pessoas por domicílio, a Rocinha teria hoje mais de 100 mil habitantes, a mesma estimativa do Censo das Favelas realizado pelo governo do estado na década passada.

Rodeada por seus dois animais, Stephanie espanta a solidão também enviando a parentes e amigos pelo WhatsApp ações preventivas à Covid-19. Ela calcula que 70% dos que circulam nas ruas da Rocinha estão respeitando as restrições. O resto não: “Tem gente que não está nem aí”, comenta, preocupada.

– Estou com saudades, quero ver as pessoas… Estou vendo a vida por cima do muro, não é? – descreve, com sorriso pela metade, porém certa de que a esperança que alimenta não deve pôr sua vida, nem a de ninguém, em risco.