A TRILHA ETNOMEDICINAL ONDE FICA A CASA DA MÃE CURUPIRA

A TRILHA ETNOMEDICINAL ONDE FICA A CASA DA MÃE CURUPIRA

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O projeto Trilhas Ecomedicinais estuda os efeitos curativos da Floresta Amazônica, as funções ecológicas e medicinais de espécies da biodiversidade através do próprio saber das comunidades indígenas e de uma imersão no perspectivismo ameríndio-amazônico.

Trilhas Ecomedicinais são parte do Projeto Luz e Ação da Amazônia e do conceito de Florestania que estuda os efeitos do poder energético e espiritual da Floresta Amazônica, promovendo as curas naturais e levando cidadania e dignidade aos povos tradicionais e ribeirinhos. O projeto de pesquisa da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará) sobre etnobiodiversidade articula ciência com conhecimentos milenares sob a coordenação do Professor Jackson Fernando Rêgo Matos, do Ibef (Instituto de Biodiversidade e Floresta), Doutor em políticas públicas e meio ambiente pela UnB (Universidade de Brasília). Junto ao Cacique Pajé Domingos da etnia Munduruku, na terra indígena Bragança-Marituba, que fica na Floresta Nacional do Tapajós, estuda há mais de dois anos o poder das espécies e os espaços, realizando práticas e vivências com rituais sagrados preservados por Pajés e Sacacas, que são curandeiros nascidos com o dom de cura das plantas amazônicas.

O Professor Jackson traz informações sobre as atividades nas trilhas indígenas e que não chegam no dia a dia da sociedade.

Pelo Rio Tapajós, rumo a Floresta Nacional do Tapajós, onde está Bragança, a Aldeia Munduruku atualmente está isolada, ninguém entra e ninguém sai. Eles se protegem da Covid-19 e utilizam sua própria medicina.

No Rio Tapajós, dentro da Floresta Nacional, chegando na Aldeia Munduruku, TI Bragança-Marituba.JACKSON RÊGO MATOS

Partindo de Santarém, pelo Rio Tapajós, chega-se em Alter do Chão, onde o movimento das embarcações é grande em tempos normais. As canoas levam turistas e visitantes para a Ilha do Amor, uma praia localizada em frente à vila de pescadores – Alter do Chão tem pouco menos de 7 mil habitantes. Também há as lanchas utilizadas para transporte dos interessados em adentrar a Flona do Tapajós e a Resex (Reserva Extrativista) Tapajós-Arapiuns, e outras comunidades que trabalham e dependem do turismo, como a Aldeia Bragança. Agora, porém, um cenário bem diferente existe no período da pandemia com a paralisação de todas as embarcações.

Até março, o destino do viajante era a Flona do Tapajós, até o acesso à terra indígena de Bragança-Marituba da etnia Munduruku, e lá, eram trabalhadas atividades de Etno-ecoturismo e contato com a biodiversidade, através do Projeto Luz e Ação da Amazônia, desenvolvendo a ideia Florestania – a utilização da floresta com fins de trabalhar a cidadania e do Amazoneizar-se, um processo de interiorização do que é a Amazônia dentro de si, entendendo a relação com os pássaros, com a cultura, com a biodiversidade de forma a desenvolver a afetividade e a alteridade.

A Floresta Nacional do Tapajós é uma área com cerca de 530 mil hectares no Baixo Tapajós, Santarém, uma das maiores unidades de conservação de florestas tropicais no mundo e que abriga expressiva quantidade de estudos científicos do País, com pesquisas de manejo florestal comunitário, servindo de exemplo para o mundo inteiro. Essa unidade de conservação recebe muitos turistas para atividades de ecoturismo, com trilhas que levam às gigantes árvores amazônicas Samaúma: é a maior árvore da Amazônia e uma das maiores do mundo, chegando a ter 60 metros de altura, 40 metros de copa e tronco de até 3 metros de diâmetro. A “vovó” das Samaúmas fica na comunidade de Jamaraquá, e a “vovózona”, na comunidade de Maguari. Essa trilha indígena ecomedicinal de Bragança pode também ser acessada pelo km 92 da BR-163, cerca de 20 quilômetros para dentro da mata em direção ao Rio Tapajós. Com várias espécies de plantas medicinais, é uma trilha muito especial, de mais de duas horas de caminhada, possibilitando entrar em contato com um mundo transcendental. 

Assim, a trilha ecomedicinal da Aldeia Munduruku, junto com Maguary e Jamaraquá, potencializarão o Etno-Ecoturismo na Floresta Nacional (Flona). É um novo diferencial de inclusão das populações tradicionais, dentro do que os indígenas já vem fazendo, mas agora, com a ajuda do projeto de pesquisa e extensão do Professor Jackson, tem o objetivo de valorizar a floresta em pé, a biodiversidade e a cultura local, levando em conta os conceitos de Florestania e de Amazoneizar-se, que pensam o uso sustentável da floresta criando condições de cidadania e dignidade através da ligação entre ciência, filosofia e espiritualidade, fortalecendo a base cultural dos povos da floresta. Amazoneizar-se é entender a Amazônia internalizando os valores da cultura, da ética e dos afetos, além do acolhimento da compreensão da dimensão do que representa a Amazônia tanto local como globalmente.

A Casa da Mãe Curupira.JACKSON RÊGO MATOS

O acesso à trilha que está sendo trabalhada pelo Pajé Mundukuru Domingos requer ‘licença’ dele e dos protetores da floresta, além das expedidas pelos órgãos federais que fazem a gestão socioambiental como o ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e a Funai (Fundação Nacional do Índio). Em geral, o grupo reúne o professor e colaboradores, que têm realizado trabalhos de cura através do saber tradicional, utilizando também técnicas de terapias alternativas, tendo como critério técnico-cientifico a interação entre as culturas, mas reconhecendo a base da região, que é a prática vivencial e o respeito ao mundo dos encantados, a crença nos pajés, curandeiros e Sacacas, além da relação político-econômica pautada na reciprocidade com a mãe natureza. Na Aldeia Mundukuru, na trilha etnomedicinal onde fica a Casa da Mãe Curupira, é usual uma imersão de cerca de 3 dias, incluindo a realização de um ritual de cura com uso de plantas e defumação indígena, como a do cigarro do Tauari. A aldeia tem recebido turistas de vários cantos do Brasil e do mundo. Mas com a pandemia, as comunidades estão totalmente isoladas: ninguém entra, ninguém sai.

Professor Jackson Rêgo Matos e o Cacique Pajé Domingos Munduruku abraçam a árvore Francisqueira.ACERVO: JACKSON RÊGO MATOS

Dedicado às comunidades da Região Norte brasileira, e preocupado com as consequências da pandemia, o professor explica: “É preciso que haja planejamento, uma organização envolvendo Icmbio, Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Universidades Amazônicas, Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e Funai, para que após a pandemia o etno-ecoturismo realmente desponte como a grande saída econômica não só para o Tapajós, mas para toda a Amazônia e também o Brasil”.